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\ Cuidado Paterno \ Homem \ Artigo

Livro: "Confissões de um PAI ..."

Por: Darcy Ladeira Dias *

Mais do que simples crônicas Confissões de um pai doméstico foge do estereótipo reinventando a linguagem

 

 

Confissões de um pai doméstico
Juva Batella
Editora Planeta
112 páginas
R$ 27


Juva Batella encontra-se entre os autores jovens que conjugam a escrita enxuta à arte de fazer literatura em inusitados experimentos com a linguagem. O escritor, jornalista e mestre em Literatura Brasileira já publicou O verso da língua (1995) e um livro com dois contos: A cabine (2002), que inspirou a série Brava gente, da Rede Globo, e O trânsito.

Nas Confissões de um pai doméstico, uma reunião de 28 crônicas, Juva Batella se isenta de cair na indelicadeza de só fazer jornalismo com a literatura ou de se empolar na erudição só porque escreve literatura. Há uma feliz conjugação das crônicas do dia-a-dia com a arte de escrever, surpreendendo o leitor nesses 365 dias, ou um ano de vida de Pipoca-Lili-Cuinha-Flips (e mais tratamentos de paixão).

A trajetória das crônicas acompanha de perto cada nova experiência do Pedacinho-fup-amado, elaborando linguagens que avançam em conteúdo e significado. Uma escrita convidativa ao leitor de qualquer idade para acompanhar o pai trancs, trêmulo qual um bambuzinho na tempestade daquele memorável 30 de setembro, quando nascia a Pipoquinha Cuinha com deleite nalma, a picuinha (pio) das aves.

Embora Juva Batella abuse dos efeitos onomatopéicos e de invenções sonoras extralingüísticas, esse grafismo redundante, até bastante arranhado, não compromete a obra. Há momentos mesmo em que esses recursos se tornam imprescindíveis, sob pena de se iludir a estética - nota mor do Batella - em função apenas denotativa. Os abusos sonoros buscam dinamizar a vivacidade do bebê Pipoca Plus.

O humor saboroso e bem dosado parece soar como sonatinas mozartianas, ensaiadas sempre em risos, trejeitos e gruinhos na interpretação do grande-pai-tradutor.

Com os Conto do rabinho e Da sopa feroz (essa, laureada com a Supersopa, de Lewis Carroll), Batella elabora uma das mais belas páginas do ideário infantil - sem recorrer ao velho clichê dos contos de fadas. Em Nana-Nenê ou Do Naná (croniquinha 17), o autor conta para o leitor (jamais Juva há de contar para a Pipoca essa história do Cuca) o mito do Homem de areia, que joga pó-de-estrela nos olhos das criancinhas para fazê-las adormecer mais depressa.

Na interessantíssima crônica 18, Da interpretação dos sonhos, o escritor se coloca na sensibilidade do onirismo infantil, do lirismo ao fantástico nas simbologias do maravilhoso, que permeiam nossos mais significativos substratos culturais.

De uma manhã diferente de todas as outras - ou as palavras do povo dogon, Juva Batella traz um povo cheio de histórias, como essa da pessoa que nasce com um punhado de palavras dentro da barriga e, ao longo da vida, vai falando e vai gastando as palavras que tem lá dentro. A barriga de um dogon é uma bolsa com palavras. Quando todas as palavras acabam, o dogon despede-se e morre.

Nesse exercício de literatura, a fábula dogon se circunscreve no próprio ato de escrever do cronista, nessas suas palavras que saem da(s) bolsa(s), remissivas à crônica de número 5,

 Da teoria da amamentação paterna. Além do humor freudiano e brincalhão, Batella prossegue sob o silêncio íntimo dos amigos - no exato momento em que o pai ingerir, ali mesmo na maternidade, totalmente crua ou, mais tarde, em casa, com calma e à milanesa, a placenta.

Nunca Batella esteve tão próximo daquilo que buscam muitos escritores nesse sucesso de interpretação. O mais interessante é que o velho dogon não se despede com as palavras, porque não havia o que incluir, e eram aquelas, e não outras, as suas últimas palavras, assim mesmo, incompletas.

Literatura ad infinitum, essa não-completude marca ainda uma postura pós-moderna que, se não inventada no pós-modernismo, vem remanejada por uma estética que pode ser traduzida em um conceito. Esse não-cessar metafórico impele o leitor a sondar um livrinho tão diferente quanto inclassificável - ainda bem! - que entra no diário (jornal) e na arte (literatura) como o sábio dogon de Mali, que não morre porque ainda não proferiu sua última palavra.

Vale a pena conferir as Confissões de um pai doméstico, onde estão ainda muitas outras surpresas literárias.

 * Pós-graduada em estudos da linguagem pela Unicamp
 


Última atualização: 10/2/2011

 

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